 | Ex-prisioneiros disseram ter sido forçados a ouvir rap em alto volume |
Dois britânicos que foram mantidos prisioneiros na base de Guantánamo, em Cuba, escreveram uma carta ao presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, dando detalhes sobre supostos maus-tratos a que foram submetidos. Na mensagem aberta, Shafiq Rasul e Asif Iqbal disseram que eles foram humilhados e que guardas usaram luzes estroboscópicas, cães e música alta - especialmente a do rapper Eminem - para tentar extrair deles informações. Oficiais militares americanos em Guantánamo negaram as acusações. “Nós nunca empregamos nenhuma dessas técnicas”, disse um porta-voz à agência de notícias Associated Press. Rasul e Iqbal ficaram presos em Guantánamo por mais de dois anos, mas hoje estão em liberdade. Andando despidos Depois de as autoridades americanas terem autorizado que eles saíssem da prisão, eles também foram interrogados por agentes britânicos, que concluíram que eles não representavam perigo e os libertaram sem apresentar queixas formais à Justiça. Segundo a carta, detentos de Guantánamo são com freqüência forçados a andar despidos como punição, mesmo quando mulheres estão presentes. Eles também disseram que foram forçados a ficar agachados com as mãos acorrentadas entre suas pernas por horas durante interrogatórios. “Soldados nos disseram ‘nós fazemos qualquer coisa que quisermos’”, disseram os dois ex-prisioneiros. O governo da Austrália anunciou que vai investigar outras alegações de que um de seus cidadãos mantido prisioneiro em Guantánamo foi submetido a abusos. Bush substitui comando da tortura no Iraque. Sai a general J. Karpinski e chega o general G. Miller com larga experiência no campo de concentração ianque no Caribe
SS de Guantánamo assume Abu Graib e defende tortura
O general disse que práticas como o uso de capuz, impedir que prisioneiros durmam e obrigá-los a ficar em “posições estressantes” são meios legítimos
Ogeneral Geoffrey Miller, que chefia va o campo de con centração dos EUA em Guantánamo – até então o mais notório exemplo de violação de direitos de presos e tortura no mundo –, foi conduzido às pressas por Bush para o Iraque, para substituir a general Janis Karpinski, em função do escândalo das fotos que mostraram as sevícias e torturas cometidas contra os presos iraquianos na prisão de Abu Graib.
Em entrevista em Bagdá - supostamente para indicar medidas contra o que ocorreu - o general defendeu “as 50 técnicas coercitivas” usadas pelos EUA para “interrogatório”, isto é, a tortura. Como registrou o jornalista Dexter Filkins, do “New York Times”, “o general disse que práticas como o uso de capuz, impedir que prisioneiros durmam e obrigá-los a ficar em “posições estressantes” são meios legítimos para uso em interrogatórios e estão entre as 50 técnicas coercitivas algumas vezes usadas por soldados americanos contra inimigos detidos”. Filkins acrescentou que Miller disse que “há técnicas de interrogatório que aumentam a ansiedade”, ressaltando que “seu uso precisa ser autorizado”. Evidentemente, as “técnicas coercitivas” não se limitam a essas que já admitem. Nem são para “aumentar a ansiedade”: são, como estabelecem os manuais de tortura da CIA, para deses-truturar o indivíduo, estripá-lo e arrancar informações.
“TORTURA É OUTRA COISA”
Por sua vez, o chefe do Pentágono, Donald Rumsfeld, afirmou sobre os crimes documentados em Abu Graib que “tortura, tecnicamente, é outra coisa”. Veja-se bem que as fotos documentavam inclusive dois mortos na tortura e, como afirmou o relatório do general Antonio Taguba, entre os atos cometidos contra os presos havia espancamento, forçamento de prisioneiros a simular atos sexuais entre si ou a se masturbarem, ameaça de eletrocução, ameaça de estupro e a sodomização de um preso com um cabo de vassoura. O que “tecnicamente” precisaria ser feito a mais para “haver tortura”?
Não se tratava, também, de um “ato isolado” de meia dúzia de soldados maníacos, sob a “direção frouxa” de “alguns oficiais”, como o Pentágono tenta encobrir. De Abu Graib as denúncias já se estenderam a mais cinco prisões no Iraque. Nem se trata só do Iraque. O Pentágono admitiu “25 mortos” em interrogatório no Afeganistão e Iraque. Certamente o número de mortos nos “interrogatórios” é muito maior do que eles admitem. Bem antes, já tinha vindo a público o assassinato no interrogatório de um ex-chefe da força aérea do Iraque.







Também não é um “malfeito novo”: há décadas os EUA são responsáveis pela difusão da tortura no mundo, para o que montaram inclusive uma “escola”, a “Escola das Américas”. Como Dan Mitrione, o agente da CIA que foi ao Uruguai ensinar tortura – e que foi executado por patriotas. Documentos da CIA apresentam a tortura como uma “ciência” – sim, leitor, um manual da CIA escrito para o massacre no Chile tem um capítulo intitulado “A tortura como ciência”. Estripa-dores da CIA a usaram contra todas as revoluções populares, como fizeram na Guatemala, no Chile, no Congo, no Irã, na Indonésia, na Argentina, na América Central. Se já faziam isso antes, imagine-se agora, em nome do “combate ao terrorismo”, onde afirmam que vale tudo.
TOQUE PESSOAL
A bem da verdade, o general Miller já havia dado seu toque pessoal à tortura no Iraque. Foi uma comissão vinda de Guantánamo, supervisionada pelo próprio general Miller, que esteve no final de agosto e início de setembro de 2003 no Iraque para, como notou o “Washington Post”, “aconselhar” as operações nas prisões dos EUA lá. Tratava-se de “atualizar” os algozes no Iraque com as “técnicas mais duras” de “interrogatório” desenvolvidas para o “combate ao terrorismo” e de que o campo de concentração de Guantánamo era depositário. A CIA e o Pentágono consideravam que o trabalho de colher informações sobre a Resistência, que se espalhava, estava muito débil.
Entre as recomendações da Comissão Miller, apontou o relatório Taguba, estava a de que os guardas militares deveriam atuar como “ativadores”, isto é, fazer a “preparação” do preso para o “interrogatório”. Como relatou um dos criminosos de guerra, “O pessoal da inteligência vinha e dizia: amaciem o cara para nós, garantam que ele tenha uma péssima noite”. Se a “preparação” era assim, imagine-se o que seriam os “interrogatórios”. Os oficiais afastados de Abu Graib, e que estão se considerando muito injustiçados, dizem que a partir daí – da vinda dessa comissão - o “novo tratamento” imperou. Dizem que não sabiam de nada- aliás, nem queriam. A CIA, a inteligência militar e os mercenários controlavam na prática a prisão. Aliás, porque teriam tirado da reserva uma general da inteligência militar e das forças especiais, se não fosse exatamente para isso? Por sinal, a general, uma megera estúpida que no ano passado declarou que “aqui os presos são mais bem tratados do que em casa, a ponto de que a nossa preocupação é que eles não querem sair”, agora declarou ao Washington Post que o objetivo do Pentágono é “acusar oficiais da reserva para encobrir a inteligência” – ou seja, a CIA – “e aí as coisas ficarem assim”. Mas, diz ela, “as coisas não vão ficar assim”. E, realmente, não vão. Ao final e ao cabo, com a amplitude que a Resistência alcançou no Iraque, toda essa podridão teria de vir à tona. Veio. E acelerou o que era inevitável: a derrocada retumbante dos invasores, inclusive dentro de seu próprio país, os EUA.
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